“Estranho como alguns prazeres mortais ainda me satisfazem…” A água quente da banheira a acalma e relaxa, e ela pousa o copo na borda de mármore. “Foi uma noite atribulada, afinal. Chegar de navio, reencontrar Luciano…” Afunda a cabeça na água, um prazer que aprendeu recentemente, quando assumiu sua nova natureza, deixando pôr um momento seus problemas de lado, pensando somente no seu futuro. Poderia ficar horas nessa posição, imersa tanto na água como em sua mente, já que respirar era um ato que só fazia em presença de humanos, mas essa noite ainda não a deixaria sossegar.
- Belle, posso entrar?
- Claro minha linda… A porta está sempre aberta. – Pelo menos dessa vez, a interrupção é bem vinda. Uma menina de não mais de catorze anos entra, estabanada, visivelmente atrapalhada em desfazer suas tranças ruivas. Lembra Isabelle vagamente, mais pela cor e corte de cabelos e a pele extremamente branca, do que realmente por aparência. Embora esteja falando em francês, a menina não é francesa, tanto por seus traços como por seu modo de ser. Sentando-se, Isabelle faz um sinal, e a chama para junto de si. A pequena se senta na borda da banheira, deixando-a desembaraçar cuidadosamente seu cabelo.
- Então… É aqui que iremos morar agora? É bem menor que seu chateau em Nice… - Sua voz soa amuada. Ela não havia gostado nada de viajar durante tanto tempo, presa durante o dia em sua cabina. Sem as brincadeiras e o espaço a que estava acostumada, reclamou quase todo o tempo que durou a travessia entre a Europa e a América.
“Estou acostumando mal essa menina…” Isabelle sorri. Seus únicos sorrisos atualmente são sempre reservados a essa criança, que recolhera e agora cuida com um amor quase maternal. “Essa menina… que estranho que eu insista em vê-la como criança… Quantos anos ela terá agora? 14, como parece? 20, 30, 100 anos? Ela será eternamente criança… como na noite em que nos encontramos naquele circo…”
…Nice, maio de 1950…
Entre os ruídos e cores do circo, a sombra negra caminha quase destoando da alegria do lugar. É hora da caça, e Isabelle procura a vitima em potencial da noite: um belo acrobata, que observara durante o espetáculo. Os sons pouco a pouco vão diminuindo, as luzes coloridas sendo apagadas, as pessoas voltando para suas casas sorridentes e felizes, e apenas permanecem os artistas, preparando-se para dormir.
Seguiu sua presa a distancia quase a noite inteira, e esta se aproximando do trailer onde a vitima dorme, cansada e inconsciente da proximidade do perigo, quando ouve gritos e quase é atropelada pôr uma garotinha que sai correndo de dentro da lona principal.
- Pôr favor… Ajude-me! Eles vão me matar! Agarrada a sua perna, a menina chora em desespero, seus cachos vermelho sangue caindo sobre o rosto, num contraste brutal que exagera sua palidez. Pálida demais. Um branco que apenas uma raça possui. “Deus… não pode ser… é só uma criança! Devo estar imaginando…”.
- Acalme-se pequena… – Isabelle pega a menina no colo, tentando provar para si mesma que era apenas um jogo de luz, mas o que vê a aterroriza, pela primeira vez em mais de dez anos. Não há nenhuma duvida que a menina em seu colo é uma vampira. “Que monstro teria tido tão abominável idéia…” - Conte-me… Quem são ‘eles’? Quem quer te matar?
A jovem volta seus olhos para a cainita. A expressão é de surpresa, e medo. “Ela sabe que também sou… reconheceu isso…” Seus olhos verdes a fitam, enigmáticos. Olhos adultos, num corpo de menina.
- Eles… Os outros vampiros… Como eu, e você… Você veio para me matar? - A voz melódica e angelical de criança que ouvira ate agora se torna estranhamente mais profunda e mais madura.
Isabelle sorri, e tenta acalmar a menina, rindo-se pôr dentro pôr descobrir que, no fundo, ainda tinha um coração muito mole. Alias, que ainda tinha um coração.
- E porque eu faria isso? Não tenho nenhum motivo… Pelo contrario…
- Mas… Meu Senhor… Ele me disse… - a menina parece confusa e atordoada, gaguejando palavras em mau francês -… Que matar outro vampiro é crime… Que se eu tentasse mata-lo ou feri-lo… Que no instante seguinte esse local estaria cheio de outros como ele para me punir… Eu não quero morrer… Estou com medo!
- Calma… Não sou uma caçadora de prêmios, nem nada parecido… Se você matou alguém ou não, não faz diferença para mim… Conte toda a estória, do começo…
Coloca a menina sobre uma mureta que cerca o local, gentilmente limpando seu rosto com um lenço, enquanto a ouve falar, repentinamente passando a falar em um espanhol fluente e carregado de sotaque, que não existia a segundos antes.
- É meu senhor… Ele é um monstro, um animal sem escrúpulo. Não sou a única criança que ele já matou… Depois ele se cansa delas… E elas desaparecem… Acho que deve ter matado elas… Só sobrei eu… Ele disse que gosta de mim, que eu sou a filhinha dele… Que eu o faço rir… Mas tinha medo que se cansasse de mim também… Ele é louco…
- Deve ser… Para ter Abraçado uma criança, como você… E outras…
- Não sou tão nova quanto aparento… Estou apenas presa nesse corpo… Sabe… Eu nasci num circo. Meu pai e minha mãe eram trapezistas. Era uma vida feliz. Minha irmã acabara de se casar, com um rapaz que estava treinando para ser… Bem… Ele fazia truques… Uma espécie de mágico da época… Eu estava iniciando no numero com ela. Ate aparecer o novo palhaço. Era um homem estranho, só ensaiava a noite, sozinho. Não falava com os outros. Quando soube que o filho que minha mãe esperava nasceu, foi até a nossa tenda, dizendo que tinha algumas coisas de criança, que queria que ficassem com ela… E eu sai…. Eu sai do acampamento… Quando voltei estava muito quieto. E na tenda… Ele estava me esperando e rindo… Tinha sangue e pedaços da minha família para todo os lados… E ele virou para mim… E … E…
A jovem engole as palavras, chorando baixinho. Seus olhos voltam a brilhar de outra forma, e ela parece novamente uma pequena criança indefesa e assustada.
- E só agora você o matou… É isso? Onde ele esta?
- Sim… Está no picadeiro central. – a resposta novamente em seu francês truncado e sem sotaques.
Pegando a menina no colo, caminha a consolando, até a grande lona no centro do terreno. Um palhaço jaz no chão, com uma estaca fincada em seu peito.
- Está ali… Eu o matei, e vão me castigar pôr isso… Eu tenho medo…
Isabelle começa a rir compulsivamente, colocando a menina sobre uma das cadeiras, falando com o corpo a sua frente.
- Gregory… Eu já devia imaginar que só podia ser você, para espalhar tanto problema e tanta crueldade. Pare de fingir agora… Porque não ensinou a menina, seu Malkaviano nojento?
O palhaço abre os olhos rindo, e tenta sem sucesso retirar a estaca com uma das mãos. Apavorada, a pequena vampira corre para um poste no lado oposto, subindo pela escada de corda ate o topo da lona.
- Isabelle… Olha quem fala de crueldade… Ouvi as novidades… Você espalhou pedaços das duas caçadoras de vampiro pôr toda a Franca… Realmente uma obra de arte… Aquelas Belmont mereciam isso… Ajude-me aqui… Essa cadelinha tentou me matar! Realmente, não que eu não esperasse isso dela… Mas ela errou a pontaria!!! Vai ter o que merece…
- Pôr favor não! Não me machuque mais! - O desespero da menina faz seu sangue ferver. Como não fervia por nada há muito tempo. Por algum motivo, o rosto de seu pai lhe vem à mente. O forte sotaque alemão do criador da garota a incomoda e dói em seu ouvido, a deixando ainda mais irritada, e ela aproxima-se lentamente do palhaço, tirando um pequeno frasco do bolso.
- Acalme-se pequena… Ele não te ensinou tudo o que devia… Estacas machucam sim, e paralisam, principalmente se você acerta o alvo e atinge o coração petit… Só que não matam. Maaaaas…
Ela abre o vidrinho, espalhando seu perfume pela roupa colorida do palhaço que a olha sem entender, ate vê-la tirar um isqueiro do bolso.
- Isabelle, não! Não confie nessa ciga…
Suas palavras são interrompidas pôr seus gritos, ao ter seu corpo incendiado. Isabelle vira-se, procurando a menina que se esconde sobre a lona.
-… Já o fogo… Isso o mata. Pode descer agora. Eu cuidarei de você agora minha linda! Você tem um nome, pequena Malkaviana?
Com uma agilidade surpreendente num corpo tão frágil e pequeno, ela salta do poste, agarrando-se a um dos trapézios. Com duas piruetas, ela salta para o solo, parando a frente de Isabelle.
- Meu nome sumiu no tempo. Mas pode me chamar como todos me conhecem no circo. Meus amigos me conhecem pôr Gotcha! E meus inimigos… Por Sweet Death…
… Santos, janeiro de 1992 …
- Se não gosta de seu quarto, podemos redecorar… - Isabelle termina de desembaraçar o cabelo da menina, e a jovem vira-se para ela, brincando com os inúmeros potes e frascos coloridos na borda da banheira.
- Eu gosto…Mas é… Pequeno. Quando vamos sair e conhecer a cidade???
Ela reconhece aquele olhar. Já convive a tempo suficiente com Gotcha para saber que ela sente fome. E isso, partindo dela, significa problemas.
- Bem…Amanha sairemos, certo? Não vá esperando uma cidade como aquelas que você conheceu… Mas você vai me jurar que não vai sair do meu lado… Ou então… - Não precisa completar a ameaça, e a menina concorda com a cabeça.
- Certo, certo… Sem brincadeiras… Mas assim não vai ter graça nenhuma! - A jovem vira o resto da espuma de banho na água, enchendo o banheiro de bolhas e espuma para todo o lado, numa bagunça generalizada.
Antes que Belle possa reagir, ela já está do lado de fora, fazendo algazarra, e ela ainda consegue ouvir Paul xingando a menina. “Ela não tem jeito… o que será que aprontou dessa vez com ele… Às vezes, eu queria ser como ela… A mente perdida na infância eterna, preocupada apenas em divertir-se, em viver intensamente…”
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