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Dicas para criação de preludios de horror

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Escrito por Gabriel "Vrikolaka"

Bom, decidi criar esse texto, mais como um desabafo de um mestre de horror, que tenta mestrar na internet. Por que eu vi que os jogadores que pairam na internet, são muito inexperientes na criação de preludios de horror (o que costuma ser ingrato, quando para entrar na sala, deve-se criar um preludio desses…). A minha mesa, é de TRPG, na RPG 2ic, horror medieval ambientado em Arton, com personagens mais mundanos, sem tanto aquele “Sou um aventureiro errante, que viaja pelo mundo atrás de riquezas”, ou “quero ser o maior aventureiro do mundo”, com uma restrição marota, de aceitar apenas personagens com ótimos preludios (o que mostra, que o jogador é mais maduro, e tal…). Porém, eu vi que jogadores, que escreviam bons preludios, inclusive, não tinham muita experiencia, em criação de preludios de horror, o que me levou a pensar em escrever esse texto.

 

 

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Aqui, estarão algumas dicas minhas, para criar backgrounds para horror. Conversando com um amigo meu, eu tirei algumas grandes ideias dele, que me inspiraram a criar esse novo NPC. Preludios de horror, para serem feitos com competência, tem que ter as seguintes coisas: algo desconhecido ou obscuro, paranóia, medo, e incredulidade. Há mais coisas, claro. Mas a conversa não está totalmente fresca em minha memória, já que foi a meses. Então, tentemos continuar com apenas essas qualidades.

Imagine um personagem miliciano. Ele guarda uma cidade, que fica aos limites de uma floresta. E ele não consegue trabalhar direito, por que sempre ele ouve barulhos bizarros na floresta. Gritos de agonia. E apenas ele consegue ouví-los. As pessoas, quando ele comenta com elas, não acreditam nele. Dizem que ele está ficando paranóico, que ele está trabalhando demais. Ao contar para o chefe, ele ri de sua cara. E lhe dá alguns dias de folga, para esfriar a cabeça. Ele lhe dá um pequeno mapa, que leva o personagem a uma cabana, de um patrulheiro que mora na floresta, que não está no momento, que saiu em uma missão de busca e rastreio para o exército do reino. Lá, ele poderá ter um pouco de sossego. Ao ir para lá, ele começa a ficar extremamente paranóico, por ouvir todas as noites, os gritos de agonia. Ele até tentou procurar a fonte, de espada e escudo em punho, mas nada. Coisa de sua imaginação? Realidade? Quem sabe…

Dá para perceber que todas essas coisas que foram citadas, foram utilizadas nesse exemplo de preludio (que nunca utilizei antes; foi um preludio que meu amigo fez improvisando, enquanto ele conversava sobre o tema…). O desconhecido, se faz com os gritos inexplicáveis em sua mente. A paranóia vem como o sentimento que ele tem, de não saber o que está acontecendo. Por que o miliciano não consegue descobrir nada? Será que é algo real, ou apenas coisa de sua imaginação? O medo, vem juntamente com a paranóia, sobre o porque de apenas ele conseguir ouvir os gritos, além de temer que ele mesmo seja a próxima pessoa a soltar esses mesmos gritos de agonia. E a incredulidade vem com que ninguém acredita nele, ridicularizando, dizendo que está estressado, e está "ouvindo coisas". Entendem aonde quero chegar?

Agora, vou explicar coisa por coisa, juntamente com exemplos, e variantes. O medo do desconhecido, poderia ser considerado o ponto principal de um preludio de horror. Pensem comigo, já deve ter sido dito em outro NPC, que um personagem que nada teme, então não inspira medo. O medo do desconhecido poderia ser milhares de coisas. Desde o mais bruto, como "por que minha mãe nunca sai de casa de dia, e sempre quando anoitece, ela sai?", como também o mais ludico como "Por que eu sempre encontro um pedaço de uma flauta de madeira quebrada, por onde eu vá? E, mesmo que eu jogue-o fora, ou o guarde comigo, eu torno a encontrá-lo?". É claro que, o personagem não deve saber a resposta da pergunta que ele mesmo faz. Isso até é bem óbvio. Mesmo assim, não custa lembrar…

Vale lembrar, que o medo do desconhecido, pode ser virado para o lado contrário: algo que você descobriu, e que não deveria ser descoberto. Dessa vez, eu vou usar novamente uma ideia do meu amigo, que ele usou para descrever essa variante. Imaginem uma clériga de Lena. Uma noviça, que idolatra uma antiga sacerdotiza, que, dizem, está predestinada a se tornar a Nova Sumo-Sacerdotiza de Lena. Porém, ela presenciou essa Sacerdotisa matando um homem, para salvar sua vida. E com isso, Lena a abandonou, pois ela prega "Antes perder a vida, do que tomá-la de alguem". E essa sacerdotisa percebeu a jovem noviça, e, ainda querendo as regalias que ela teria em seu templo, ou mesmo não ser discriminada por ter feito algo para salvar sua própria vida, obrigou a garota a esconder o fato. Agora, ela vive atormentada, por que ela sabe que o certo é contar a verdade, mas ela sabe que se fizer isso, atrairá a ira da Sacerdotiza que caiu.

Isso nos leva ao fato da Incredulidade, nosso próximo tópico. A incredulidade vem junto com o medo do desconhecido, pelo seguinte fato: você sabe que algo está acontecendo, tem certeza disso, mas todos que você conta, eles não acreditam. Usam de argumentos razoáveis, dizendo que está estressado, que nada disso acontece, ou de maneiras mais pejorativas, como dizendo que está louco. Essa incredulidade leva a Paranóia, que vai fazer o personagem pensar se isso não é mesmo verdade, o que eles dizem? Talvez ele esteja mesmo trabalhando demais… talvez, algum distúrbio mental, por alguma situação traumática no passado, que ele não se lembra… Mas, algo dentro de si, sabe que é verdade… e isso faz com que você fique péssimo, pois nem em você mesmo você consegue acreditar…

Usando o exemplo anterior, digamos que ela tenha contado as pessoas que a sacerdotisa fez, e eles dizem que nada aconteceu. "A mulher é um verdadeiro anjo, que não faria mal a ninguém. Deixe de ser boba, deve estar com inveja, e está querendo contar mentiras sobre a clériga.". Ou talvez, digam que "Você pode ter se confundido, talvez tenha sido um sonho, minha querida…". A noviça tem certeza do que aconteceu, mas ninguém acredita nela. Mas, ao ver a clériga fazendo seus rituais normalmente, ela começa a duvidar, que ela realmente tenha visto aquilo…

O medo, é algo imprescindível para uma história de horror. Pensem comigo: se um personagem não tem medo de nada, por que ele estaria numa história de horror? O medo, pode vir de várias coisas. É um pouco complicado dar uma boa definição da palavra medo, sem dar exemplos, pois as possibilidades são completamente infinitas.

Usando ainda a noviça de Lena como exemplo, digamos que a sacerdotiza caída tenha descoberto que a jovem tenha abrido o bico. E que, agora, ela esteja com medo, que ela tente fazer algum mal a ela. Ela pode se tornar paranóica, achando que a sacerdotisa tenha mandado pessoas para matá-la. Ou então, evite encontrar com ela, tentando postergar o máximo o contato da noviça com a experiente sacerdotisa. Porém, ainda há a chance, de que a sacerdotisa não tenha descoberto ainda. E que essa paranóia seja apenas o medo, de que, quando descobrir, ela seja severamente punida, provavelmente com a morte…

No final, acabamos criando um background extremamente rico, sombrio, e sem nada de sobrenatural, porém, com um sentimento de culpa e medo muito grande. Viram? Não é tão dificil fazer algo assim… apenas um pouco de prática, que vocês conseguirão facilmente…

Fugindo um pouco do tópico que estavamos falando antes, mesmo das histórias de horror, e passando mais para uma história de fantasia tradicional, uma coisa bem legal de se fazer, é dar uma profissão a um personagem. Afinal de contas, aventureiros ou qualquer coisa que seja seu personagem, não faz apenas aquilo. Pensem em seus personagens como se fossem pessoas! Pessoas, tem muitas nuances diferentes. Por exemplo, um simples vendedor, que trabalha numa loja de sapatos, pode ser um escritor promissor. Ou talvez, um monitor de festas infantis de buffet pode ser um músico competente! E não tem nada a ver uma coisa com outra! Algumas vezes, as profissões normais deles, sejam similares a coisa que mais gosta de fazer, como um jornalista e redator, ser um escritor, ou um professor de música da Unesp seja um musico conceituado. Claro que, eu usei como exemplos, exemplos de nosso cotidiano, como vendedor ou monitor de festas infantis, mas a lógica segue.

Por exemplo, seu grande clérigo de Khalmyr, o deus da Justiça, poderia ser um juiz, ou advogado, ou seu ladino seja um comerciante, que emprega suas capacidades de lábia e blefe para fazer o melhor negócio. E isso dará ao seu personagem, uma profundidade mais do que especial. Lhe dará consistência, lhe dará ideias de como interpretá-lo, entre muitas outras coisas lindas que podem ser citadas, mas que fogem de minha cabeça…

Outra coisa, que eu digo, é fugir um pouco dos clichês. Se seu personagem é um ladino, por que ele deve ser um ladrãozinho pé-de-chulé? Se seu personagem é um bárbaro, por que ele deve ser burro? Se seu personagem é um paladino, por que ele deve ser sempre humilde? Não seria melhor você abrir seus horizontes? Talvez seu ladino seja um investigador, que cace criminosos. Ou então um bárbaro extremamente perspicaz, e inteligente, que conheça sobre muitas coisas. Ou ainda um paladino arrogante, que considere aqueles que não seguem suas crenças como pessoas inferiores?

Há muitas nuances que podem ser incorporadas às classes. Todas elas, sem exceção, agrupam qualquer arquétipo, qualquer ideia que você tenha em mente. Talvez seu bardo não seja um viajante, mas sim um jovem que vive infurnado em um templo ou biblioteca, aprendendo sobre várias coisas, enquanto toque seu alaúde como um hobby. Ou talvez um ranger, que odeie as florestas, e tenha escolhido as cidades como seu terreno predileto, ou ainda, UMA cidade em específico.

Acho que, esses são desabafos, de um mestre que sofre com os clichês. Pois, sempre, e eu digo SEMPRE, eu vejo pelo menos um jogador de minha mesa com uma história extremamente clichê. Quer seja o Goblin Ladino batedor de carteiras, ou o Bárbaro extremamente burro, que bate primeiro, e pergunta depois. Ou ainda, a Clériga de Nimb completamente biruta, que usa meias compridas de cores desconexas, e fala asneiras completas, como "Ai, droga! Perdi pontos de Vida!", ou com amigos imaginários completamente sem noção. Acredite, eu vejo sempre isso. E, isso me entristece demais.

Mas, claro, é possivel de se conseguir fazer personagens muito ricos com histórias ou arquétipos clichês. Mas, seu personagem simplesmente não irá se destacar pelo que ele é. Pensem nisso…

Uma idéia boa, também, é não ser aquele lobo solitário, que não tem vínculo com ninguem. Isso, para históricos de horror, é imperdoável. Para as de fantasia medieval, é algo até aceitavel, mas não recomendado. Um personagem com uma familia formada, filhos, esposa, que ele zela acima de tudo, ou então pais, irmãos, seria muito mais bonito do que um personagem que não tem familia alguma (até por que, isso virou um clichê…). Além de poder ter ótimas cenas de roleplay na mesa de jogo, e dar ganchos para o mestre (uma razão muito legal…), tem aquela coisa, de você ter um porto seguro. Afinal, uma pessoa que tem amigos, familia, se precisar de alguem para ajudá-lo, eles estarão lá. Porém, se você bater o pé, e dizer “eu não quero ter uma familia, só vai me causar problemas no futuro”, eu só posso citar uma frase de Ravenloft: “Se seu personagem não tem a quem perder, ele também não terá a quem pedir ajuda, quando preciso…”
Outra coisa extremamente util, é você descrever como seu personagem é, em todos os sentidos. Aqui, haverão divergências, que dizem que "Ah, eu penso na personalidade dele em jogo!". Porém, descrever como seu personagem é, fisica e mentalmente, ajuda MUITO, não só para deixar seu preludio mais encorpado, mais bonito de se ler, como vai lhe servir como guia, para não acabar se perdendo na interpretação (nossa, quantas vezes já aconteceu com jogadores meus, e até comigo…).

Para ilustrar, eu vou usar um exemplo meu. Tenho costume, de escrever preludios em primeira pessoa, fica muito mais bonito, e dá pra ter uma boa noção de como é a personalidade dele. Vou usar o exemplo, de minha personagem de Lobisomens o Apocalipse. Além de ela ter todas aquelas coisas de horror, que foram citadas antes, ela, narrando aquilo, mostra que é uma pessoa extremamente insegura, tímida, até um pouco triste, por que ela não tinha amigos, todos chamavam ela de aberração, de louca, pois ela conseguia ver espiritos, e ninguém acreditava nela. Também tinha medo, de muitas coisas, como ela ter medo de homens, pois quase todo homem que aparecia na vida dela, queria ferrá-la, assim como ela ter medo da solidão. Ela estava a beira de entrar em depressão, por que ela não queria ficar sozinha, queria alguém para ajudá-la a se amparar, mas ninguém queria, pois achavam que ela era louca. Tentou de todas as formas possíveis, e não conseguiu.

Viram? E isso, era apenas parte da personalidade da personagem, que, não só deu uma profundidade ao preludio maior, como deu ganchos para poder interpretar, deu ganchos de história mesmo, além de mostrar, como que lhe tratavam, e um pouco de sua vida. Descrever como um personagem age, no preludio, só faz o bem. Aconselho que, mesmo que não sejam backgrounds de horror, que os jogadores incluam isso em seus futuros preludios.

Um fato divertido, também, é você colocar defeitos no seu personagem. “Ér… mas porque eu gostaria que meu personagem tenha defeitos? Afinal, defeitos apenas irão me atrapalhar, na minha cruzada para destruir o mal!”, os hacknslashers pensariam na hora, é claro. Mas, é fato, que um personagem que tem defeitos, ele faz com que o personagem seja mais orgânico. Deixará de ser um simples monte de anotações, e se aproximará de ser uma personagem de uma história. Um personagem de história, de qualquer tipo, ele tem qualidades, sim. Mas também, tem defeitos, tem sonhos, tem motivações de vida, anseios, gostos, e muitas outras coisas. E, claro, irei explicar cada um deles, para demonstrar.

Defeitos, são parte inerente do ser humano, isso é fato, consumado. Mas, numa história, por que seu personagem tem que ser perfeito? Isso até já foi matéria de uma Dragon Slayer (edição 21, se não falha a memória), que mostra maneiras de não fazer “Gokus” da vida (Convenhamos, o unico defeito dele, é que ele tem medo de injeções… e isso lá é defeito?). Por que seu grande bárbaro não poderia ter medo de ratos? Por que seu ladino, não poderia ter a lingua presa? Claro, medos, problemas físicos, são parte das coisas, que farão com que seu personagem seja único. Mas, não seria a unica coisa que poderia dar esse efeito. Talvez seu personagem seja extremamente ranzinza, ou talvez um cara apenas tímido, com dificuldade de se relacionar com as outras pessoas. Dê asas a sua imaginação…

Sonhos, são coisas muito complicadas de se falar. Eu conversei com o Mufasa (ver créditos), e ele chegou, e me perguntou: “Qual é seu maior sonho? Aquele que você mais anseia em alcançar?”. De pronto, respondi que era ser um Artista completo (ser músico, escritor e desenhista) conceituado. Assentindo, ele me perguntou logo em seguida: “E. se por acaso, você conseguir alcançar todos esses objetivos em sua vida, o que vai restar de seu sonho?”. E isso me deixou pensativo, por um bom tempo. Pois afinal, se eu alcançar meu sonho, o que vai restar de meu sonho? Embora, eu sabia a resposta, e fora ela mesma que eu dei, que não restaria nada. E ele disse, a máxima: “O ser humano é muito tolo, por que eles correm atrás de algo a vida inteira, almejam, tentam, e pouquíssimos conseguem alcançar os louros de alcançar seu sonho. Mas, depois disso, o que sobrará de sua vida?”. E é isso que é um sonho. Algo, absurdo, mas que você continua correndo atrás, por mais absurdo que seja. Adaptando para a fantasia medieval, poderia ser considerada da seguinte forma: “Eu quero destruir todos os goblinóides da existência.” Absurdo, não? Pois é… isso é um sonho… um pouco fraco, mas, ainda um sonho. Entendem onde quero chegar?
Motivações, são coisas mais simples, mas, não menos importante, e está intimamente ligado ao sonho. Por que você correria atrás de seu sonho? Talvez você simplesmente estivesse entediado, e arrumou esse sonho impossível, como uma maneira de se entreter. Ou talvez, como uma coisa nova, que você nunca fez antes; Ou ainda, por que, de tanto lhe tirarem a motivação, você correrá atrás de seu sonho, com teimosia, para mostrar, que no final, eles estavam errados. Possibilidades não faltam, nem um pouco.

Para encerrar, eu desejo lhes dizer uma coisa. Aqui, há ideias, de como criar preludios de horror. Porém, eu não gostaria que vocês utilizassem essa técnica, que até é bem efetiva, como uma receitinha de bolo. Deixo ela, apenas como trilhas, e não como trilhos, como diria Rousseau. Pode ser, que eu expanda esse tema mais tarde, com novas experiências que tive, com novas pessoas que conversei por aí, e o melhore de várias maneiras.

Isso é tudo. Muita paz, e lembrem-se, como diria Marcelo Del Debbio: Isso é só um jogo. A realidade é muito pior…

P.S.: Esse amigo que me ajudou a pensar nessa postagem, é meu amigo Mário "Mufasa" Corrêa. Meus agradecimentos a esse grande amigo.

Última atualização em Sáb, 10 de Março de 2012 10:43    

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